quarta-feira, 4 de julho de 2007

DA SILVA, UM “FILHO DA MÃE” GENTIL

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Perdoem-me os leitores pela dubiedade do título. O personagem que dá vida a este texto não é um “filho da mãe”, no sentido pejorativo da palavra, mas é um típico “filho da mãe gentil”. Essa é sua melhor descrição.

Sua mãe não fez uma pesquisa no “Google”, e nem saberia fazer, e nem precisaria, para dar a ele o nome mais comum que poderia existir: “Da Silva”. Seu andar é apressado, como quem foge de um algoz. Parece estar sempre devendo algo ao mundo, uma dívida que ele não contraiu, um preço que ele sente ser sua sina pagar, mas cuja esperança de um dia ser livre ainda se esconde no peito [... ... ...]
Seu olhar é cabisbaixo, mas não por uma melancolia passageira. A tristeza é uma realidade pacífica. É que ele tem medo de ser repreendido, humilhado, subjugado, acusado, julgado como réu em um tribunal em que não há advogados que lhe defendam, em que qualquer pecha lhe cai bem. Tem medo de encarar, de fixar os olhos, que são incrivelmente expressivos na demonstração de sofrimento e que delineiam e apontam para o chão, lugar onde mora sua dignidade própria. É difícil encarar quem já lhe nasceu superior, quem a vida já premiou com um sobrenome.

Seus ombros também são baixos. O peso das agruras da vida lhe é um incômodo companheiro. O único, talvez, neste mundo que abandona e nada dá aos que pouco têm a oferecer. É um quasímodo que não é Hércules.

Em sua boca faltam os principais dentes. O sorriso, quando surge, vem nervoso, tímido, pelo canto da boca. São vários os traumas. No corpo e na alma. Desde a infância. Infância dura, de pais ausentes, a não ser a mãe, uma velha moribunda invalidada pela doença. Seu nome não importa, nem o nome da doença. O leitor, se quiser, pode escolher a imperiosa causa mortis dessa figurante da vida real.


O “Da Silva” não sabe andar de bicicleta. Fez falta quando o patrão queria que ele fosse fazer um favor na bodega. Não sabe andar porque não deu pra aprender na infância. Bem que ele olhava os meninos, filhos do doutor, desfilando imponentes pela calçada da rua. Eles até queriam ensiná-lo a manobrar o brinquedo, mas o doutor, que era pediatra e psicólogo infantil, disse que o não era boa companhia para os meninos. Ia levá-los a brincar com as outras crianças do nível do “Da Silva” e a aprender o que não devia.

Ainda novo, fizeram-no entender que sua sina era a mesma dos demais garotos que se sujavam de areia no campinho do bairro. Foi pego roubando na rua. Na primeira vez, ele nem sabia direito o que fazia. Encostou-se à senhora e “passa a bolsa tia”. A partir da segunda, ele já sabia as conseqüências, vivas na memória e no lombo açoitado pelo cacetete dos policiais. Parou de delinqüir quando sua fama começava a se espalhar pelo bairro e a afastar as possibilidades de “emprego” das quais até hoje tira seu sustento: os “bicos”. Parou também no dia em que “concluiu sem concluir” que era melhor viver dignamente (o que lhe parece ser trabalhar para sobreviver e sobreviver para trabalhar) do que viver escondendo o rosto. Porque a vergonha que ele sente não é a de ser um fugitivo da justiça, mas da vida, de ter nascido mal nascido no país dos bem nascidos.

Juntou-se cedo com uma moça empregada de casa de família. Rápido como quem rouba, ela pariu cinco vezes. Mais rápida ainda foi em trair o “Da Silva” com um vizinho e o abandonar de vez no fétido barraco. Ele mora em uma favela, é claro. É mais um morador de uma comunidade que mastiga as amargas pétalas da realidade. Sua casa, de papelão, é não custa a alagar quando chega a chuva forte. Levanta-se no meio da noite com a água já cobrindo os tornozelos cinzentos, coloca os poucos móveis em cima de uma mesinha, doada em um ato de grande benevolência do patrão, e vai para a rua esperar amanhecer. Enquanto ajuda os vizinhos mais abastados a levar alguns eletrodomésticos, pensa nos filhos pequenos que a mãe carregou. Onde estariam à uma hora daquelas?

Para eles, o pai de verdade é o tal vizinho traíra. Ficou sabendo disso na semana passada. Doeu muito o coração do “Da Silva”, que tem nos garotos a única riqueza. A ex-mulher escondia os meninos. Todo mês era aquela cena ao pedir dinheiro para o leite. Só aparecia ao receber notícias de que “Da Silva” estava pegando algum serviço. Neste mês, chegou ao barraco com a história de que ia “entrar na justiça” e que se ele não pagasse a pensão seria preso.

Não me pergunte o porquê de “Da Silva” não reclamar, não se engalfinhar com a dita cuja em nome de sua paternidade. O sofrimento nem sempre é a mola mestra de uma transformação. Em alguns, dilacera, inanima. Deve ser o caso.

Alguns têm nojo do “Da Silva”. Ele fede, causa “gastura”, ansiedade, uma indisposição orgânica que repele os perfumados. Doe não ser aceito.

Outros se indignam por haver seres humanos reduzidos à condição deplorável, ao tipo penal da condição análoga a de escravo, por não terem o mínimo necessário para subsistirem... Os que assim se posicionam, beneficiam-se direta ou indiretamente da miséria do “Da Silva”, mas esbravejam nos sofás das casas ou nos microfones das casas legislativas, demonstrando notável talento para a arte dramática.

Outros têm pena do “Da Silva”. Sentem um desconforto existencial comparável a uma unha encravada, ao assistir ao espetáculo da degradação humana. Como escape, dão esmolas, e retiram de si mesmos um peso que imaginam poder ser carregado pelas moedas do alívio de consciência. Sentem-se “Santos Antônios”.

Alguns mais já aceitam ineptamente a situação do “Da Silva”. Chegam até a citar a Bíblia: “... sempre haverá pobres entre nós...”. São racionais ao extremo e concluem: “se não existissem os pobres, nunca seríamos ricos”.

Poucos são os que parecem se importar de verdade com nosso personagem. Mas quem é possuidor da verdade absoluta? Quem pode ser considerado justo?

Quanta injustiça. Por que não nascemos com oportunidades pelo menos semelhantes, para não dizer iguais? Por que alguns têm tanto e nunca se conformam? Querem sempre mais, em detrimento, muitas vezes, do pouco que resta à maioria.

Por que os poderosos investem tanto em armas e munições, se o mesmo valor poderia salvar vidas as quais têm o gume da fome apontado diuturnamente para seus estômagos? Por que há crianças tão mimadas e rodeadas de presentes, enquanto outras são tão desassistidas e contemplam a tecnologia apenas pela tela fria de um televisor? Que culpa estas têm?

Não é hora de discursar a respeito da força de vontade capaz de suplantar todas as barreiras, pois um recém-nascido foi afogado em um vaso sanitário e, após ser lançado em um caminhão recolhedor de lixo, incinerado. Não houve tempo quiçá de respirar, quanto mais de exercitar sua força de vontade.

E o “Da Silva” sobreviveu. Deve estar agora, às três da tarde, acocorado ao pé do muro de uma senhora bondosa que prometeu um prato de almoço em troca de um dia de faxina em sua modesta casa com piscina. “É pouco serviço, “Da Silva”. Depois tem a piscina pra limpar. Você acredita que faz uma semana que os meninos não tomam banho lá? O quintal também tá pra ajeitar, e tem a Swhsy (o bicho de estimação da residência, de nome quase impronunciável) pra levar pra passear. Você sabe que ela fez uma cirurgia e precisa respirar ar puro. Num instante você termina”. Faltou ela dizer: “E ainda me agradeça por essa caridade”. “Da Silva” se lembra da dor do peito que sente há anos quando tosse forte e assusta a patroa: “Rapaz, isso parece tuberculose”. O “Da Silva” nem falou que espera há meses por uma consulta no posto de saúde filiado ao SUS. Sob o silêncio daquele “diálogo de uma pessoa só”, ela não falou, mas pensou: “Enquanto o “Da Silva” não melhorar dessa tosse, é bom ele chegar muito perto da Swhsy”.

“Da Silva” se levanta, limpa os pés empoeirados e rachados pelo chão escaldante da calçada e caminha. Fica até a noite na lide prometida. Cansado, já tarde, vai embora. Passa pela porta dos fundos, satisfeito por poder levar a sobra do dia para comer à noite, momento em escuta o som da tv a cabo sintonizada na tv Senado. Era sessão solene no Congresso e ecoava o imponente e emocionante hino nacional que deixou mareados os seus olhos e curiosa sua mente, em um “exercício semântico” cruel. O trecho final prendeu de vez sua atenção. É que ele dizia:“... dos filhos deste solo és mãe gentil. Pátria amada, Brasil”.

3 comentários:

emannuell disse...

Gentil para uns, cruel e implacável para muitos. Coronéis, latifundiários do poder, "escolhidos pelo povo", monopolizam suas tetas. Dizem estar cuidando para que exista "ordem e progresso" no acesso a tão fartas e suculentas fontes.
Outros, sem excelência alguma, morrem desnutridos ou subnutridos vivem.
Aqueles, conhecidos por títulos tais como "Vossa Excelência", desviam o leite para abastecer seu estoque infindável de mamadeiras de fundo falso.
Somos irmãos, e por este motivo tenho todo o direito de chama-los de Filhos da Puta!

emannuell disse...

Edílson, mah!
Vc está escrevendo muito bem cara, o Evolutivo foi tão competente né?
kkk
Abração mah, saudades daqueles tempos. Tempos em que a Tati estava no cursinho conosco (eu e o renee), e vc passava lá no auditório no intervalo pra bater o ponto com ela, kkk.
É o novo!!!!!

Edilson de Holanda disse...

Valeu pelos coment�rios Manel. Tamb�m sinto saudades de nossa conviv�ncia. Seja bem vindo ao "Ess�ncia da Coisa".
Abra�o de seu amigo!!

Por Edilson de Holanda